Porque a vida não é feita somente de grandes acontecimentos mas principalmente de cenas e histórias da vida privada, das ruas, do mundo corporativo. Estórias vividas, encenadas ou ouvidas.
Mostrando postagens com marcador Contos do cotidiano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos do cotidiano. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 24 de março de 2014
Equinócio de Áries
Equinócio de Áries Constato perplexa, que estamos a um passo do final do primeiro trimestre de 2014. O tempo não para. Na semana passada o céu no Rio de Janeiro esteve incrivelmente claro e cheio de estrelas, com a lua particularmente bela e brilhante e parecendo mais próxima. Alguém reparou no céu? Não é por acaso. Entramos no Equinócio de Áries. Todos os anos, nos dias 20 ou 21 de março, o Sol cruza o Equador no ponto do equinócio (vernal); nesta ocasião, deixa o Hemisfério Sul e entra no Hemisfério Norte celeste, dando começo à primavera no Hemisfério Norte terrestre e ao outono no Hemisfério Sul. Portanto, este é o ponto fixo do cruzamento dos dois círculos máximos da esfera celeste, a Eclíptica e o Equador. Temos a sensação de que o tempo passa cada vez mais rápido, mas ele vem cadenciado e sempre marca as suas passagens e deixa suas pegadas no universo. É que estamos tão ocupados e preocupados com o cotidiano que nem nos damos conta dos ritos de passagem. Que a natureza criou. E a vida se transforma. E, mesmo que para nós, o mundo pareça caótico e instável, o universo continua seu curso, pelas leis que assim o regem. Os dias se sucedem (teoricamente ainda em 24 horas). As estações mudam durante o ano, independente de sentirmos concretamente. A terra continua girando em torno do seu eixo e em torno do Sol. Os planetas seguem seu curso no mesmo tempo e se revezam pelos espaços. Os mais estudiosos sobre o tema, comprovam a importância e interferência da sucessão dos planetas e suas posições astrais na história do homem e da humanidade, marcando processos históricos. Quando mudanças significativas ocorrem, novas qualidades surgem no comportamento e nas visões filosófica, econômica e religiosa da humanidade. Desde Copérnico, em 1543 sabemos que o Sol está no centro do Universo e não a Terra. Mesmo sabendo disso, não temos como olhar o Universo de fora, ou a partir do Sol. Tudo que olhamos, enxergamos e interpretamos vem a partir da visão da Terra para o Universo. E apesar de estarmos girando todos (planetas) em torno do Sol, toda a visão que possuímos vem a partir do nosso ponto de vista. Uma visão parcial, portanto. E inevitável. E nesse sentido não posso deixar de refletir sobre o paralelo com a visão que possuímos do universo mais próximo que nos habita. Tudo que enxergamos, analisamos e interpretamos parte apenas do nosso ponto de vista. Parte apenas do lugar que ocupamos, no momento. A falta de distanciamento crítico nos leva à ilusão de que o cosmos gira a nossa volta(Terra) e que os acontecimentos diários são pessoais. E criamos nossas verdades. Respiro e reflito. O ano já cumpriu seu primeiro trimestre. As estações mudaram. Estamos no Outono. E repasso como um raio de pensamento o filme do passado recente Respiro mais uma vez profundamente. Não sabemos ao certo o que vem por aí. O ano começou quente, não só pelos altos graus Celsius, mas pelos acontecimentos diários: catástrofes acontecendo em toda parte, escândalos, o absurdo nos surpreendendo a todo instante, a sujeira e hipocrisia sendo remexida e vinda à tona. Respiro mais uma vez. Estou na varanda da minha casa e começo a ouvir a gritaria das crianças chegando à escola municipal que fica em frente. E aí me lembro do que um amigo uma vez me disse: - Quando ouço as vozes de crianças entrando e saindo da escola, sinto uma paz interior e relaxo... O mundo ainda está no mesmo lugar. O futuro está sendo preparado.
terça-feira, 11 de março de 2014
Carnaval
Além do calor incrível que não deu trégua, tivemos pela
frente o Carnaval e toda sua alegria. Pensei primeiramente em me refugiar em
casa mas o calor me fez encarar o dia, a luminosidade do sol e o dia todo pela
frente.
Não adiantava mais àquela altura fugir. Todo esse clima e situação
me obrigou a ser feliz. Mas me senti
meio esquisita por não compartilhar de tanta felicidade. Sonhei egoisticamente com
chuva, frio e céu nublado pra justificar o meu desejo de ficar quietinha em
casa e ter o privilégio de ser infeliz um pouquinho.
Mas estava definitivamente obrigada a ser feliz. O meu estado
poderia ser considerado de completa inadequação. Alguns até diriam que se tratava de depressão.
Eu chamaria de o direito de não estar
feliz. Poderia optar pelo isolamento.
Mas não resisti. E me
entreguei por dois dias à alegria contagiante do Carnaval. Achei um refúgio na
rua do Lavradio com seu festival de jazz e depois emendei no ritmo do Boitatá
num dia e Bangalafumenga no outro, na Praça Tiradentes. Quem me
visse diria que eu era uma autêntica adoradora do ritmo.
Nada programado. Agradeço à amiga Andréia que me tirou do
estado de isolamento crônico.
Fiquei feliz comigo mesma por ter sobrevivido, mesmo com meus
pés arrasados. Posso dizer que foi muito bom. Bom por ter compartilhado com amigos, por ter
vivido aqueles momentos na rua, por ter presenciado, por ter vivido. E por ter
me entregue aos braços da alegria, com amigos.
Ao andar pela cidade, no entanto, tive uma sensação de
abandono, não só pelas ruas desertas, quando distantes dos pontos de concentração
da folia, mas pela quantidade de lixo
espalhados pela cidade . É impressão minha ou definitivamente o Rio não estava
feliz? Os garis não estavam. E deixaram claro pra todos nós.
Na Rede Globo sobraram notícias tendenciosas de que a
felicidade estava no ar. Que o Carnaval nos levava a um sorriso espontâneo e
natural. E que a cidade do Rio de Janeiro é o presente do verbo sorrir : Eu
Rio. Um trocadilho. Entendeu? Sorria então.
É tempo de ser feliz , era a ordem do momento.
Na minha rabugice, fiquei pensando (inutilmente)pelo momento
que o Rio vai acordar da fantasia. E nem
falo da fantasia do carnaval mas dessa que estamos vivendo no dia a dia, com os
preços irreais, com a violência nos rondando em cada nova notícia. Com as obras intermináveis e de um ano com Copa e eleições.
Passei por uma banca de revistas e vi uma manchete falando
que trata-se de uma bolha imobiliária e que vai estourar. Por enquanto parece
concentrada nos imóveis comerciais... por quanto tempo ainda viveremos essa
histeria?
Ou será que só eu e os que me cercam continuam vivendo de
seus salários? Salários esses que não cresceram na mesma medida que os preços
de tudo? Será que perdi o bonde? Ou fui esquecida?
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Calor do Saara
Os dias cada vez mais quentes, de
um calor escaldante. Não me lembro de ter visto isso antes. Tá
certo que não morava na cidade maravilhosa. Andava protegida na serra.
As roupas estendidas ainda
ensopadas no varal, se submetidas ao sol direto, em pouco tempo são recolhidas
ressequidas, sem resquícios de umidade no tecido. Nem mesmo o amaciante dá
conta de manter a maciez do fio. Imagine nossa pele.
E aí, sair na rua nos horários de
pico do sol é decretar mal estar súbito.
Desci a rua em direção ao
compromisso de sábado. Conforme fui descendo, minha respiração foi ficando mais
intensa, o peito pesado e o corpo cada vez mais lento. Atravessar a Praça Saenz
Pena às três horas da tarde me pareceu atravessar o deserto. Do Saara. Cheguei
ao meu destino sentindo algo que nem sei explicar. Estou preparada fisicamente
para caminhar longas distâncias, mas definitivamente não em condições
inóspitas.
Enquanto atravessava a praça não
pude deixar de lembrar-me de algumas passagens do livro de Ryszard Kapuscinski –
O Ébano. O jornalista polonês percorreu o continente africano como
correspondente da agência de notícias polonesa PAP. Sua primeira incursão pela
África aconteceu em 1957. Ele se refere ao calor da África em diversas
passagens, profundamente impressionado com a forma que os africanos encontraram
para conviver com isso, de forma intuitiva ou por um conhecimento passado por
gerações.
Ele conta que passava e se
surpreendia com as pessoas paradas, numa mesma posição durante horas, sem
qualquer expressão no olhar, apenas paradas.
E pensei que poderíamos aprender
essa técnica, nesses novos tempos de calor, tão semelhantes. Afinal ele se
referia a 50 graus. Já deixamos de ser
Rio 40 grau. Tais como os africanos,
diante desse calor, aprenderíamos a ficar parados, sem movimento, em estado de semicoma,
quase vegetativo.
Uma boa opção. Teoricamente
abandonaríamos o corpo físico e o deixaríamos ligado à mente somente por um fio
invisível. Deixaríamos o estado de vigília, portanto. A teoria é que nesse
estado, o corpo se desliga temporariamente das sensações físicas tais como
calor, frio, fome, etc.
Teríamos que adaptar essa técnica
para o dia a dia no Rio de Janeiro. De
alguma forma, creio que o carioca já exerça essa capacidade de desligamento, a
contar pelas inúmeras e intermináveis filas de ônibus, trens, bancos, repartições
públicas. Talvez já exista alguém vegetando nessas filas.
Bem, pela manhã tudo bem. Apesar
do calor já beirar os 36 graus, é mole pra gente. Um banho frio de manhã, uma
roupa fresca, comidas leves. Terei que
adaptar o meu café da manhã para uma versão gelada, já que tenho crise de
abstinência sem ele e tá ficando difícil a versão tradicional, quentinho.
Complica mesmo na hora do almoço.
A partir de 11 horas (10 horas na verdade) o sol de meio dia já chegou
apressado. Às 12 horas, ele “tá que tá”. Somando ao calor, ruas lotadas de pessoas
transitando em busca de um lugar para comer, mas antes de qualquer coisa um
refúgio. E aí junto com as pessoas, o vozerio, os restaurantes lotados e o tão
sonhado ar condicionado não dá conta de refrescar tantos corpos quentes e
suados... Uma catástrofe.
Saí, dia desses, sozinha para
almoçar porque pretendia passar pelo Banco. Fui um pouquinho mais longe que o
de costume. Mas o local é conhecido como Saara. Dá pra ter uma ideia que o nome
não é à toa. Até chegar ao restaurante
passei por diversos obstáculos: muita gente transitando, falando. Ou melhor,
gritando. Em volta, sujeira, poeira, cheiros variados e desagradáveis. E o sol
lá em cima, impiedoso.
O restaurante que a princípio
parecia um oásis, logo se transformou numa fornalha. As garçonetes agitadas,
derrubando tudo, filas imensas. Saí de lá irritada e com dor de cabeça. Cheguei
a achar lá fora melhor. E não pude deixar de lembrar o livro.
Lembrei-me também que, de alguma
forma, eu já utilizava uma técnica de semi- presença e precisava resgatar. Uma
versão carioca.
A versão é simplesmente ignorar. É
preciso ignorar o calor. Essa é a minha teoria.
Ao atravessar qualquer porta que
o separa do ar condicionado com o mundo lá fora, você deve respirar fundo e
depois compassadamente. Agarre sua bolsa ou carteira (não dá pra vegetar nesse
sentido no Rio) e sair em passos cadenciados e fazer de conta que está em algum
outro lugar (escolha o seu). O calor vai chegar de qualquer jeito e te dominar
por completo, mas, finja que não tá nem aí.
Pra mim funciona se eu estiver andando, em movimento o tempo todo. Se
parar... O calor concentra e aí saio em pouco tempo do estado meditativo para o
desespero.
Bem, afinal acho que não sou tão
boa nessa técnica assim.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Alabama Monroe
Alabama Monroe – o filme
Entrei despretensiosa pra
assistir ao filme Alabama Monroe.
Vi rapidamente a sinopse e crítica do filme e
decidi por ele. Normalmente me cerco de informações sobre qualquer filme antes
de assistir. Especialmente aquele dia acreditei na sinopse do filme, mesmo sem grandes evidências.
O objetivo naquele fim de tarde,
na saída do trabalho, era simplesmente
ficar sozinha, no escuro, em silêncio... arejar a cabeça, sair de cena e do
espírito dominante daquele dia.
Tinha decidido dar um ponto final
a uma história de aproximadamente cinco anos. Uma história sem história. Anos
de expectativas e apegos a um passado remoto e um futuro improvável. Foi um dia
de algumas despedidas internas. Não sem sofrimento. Uma tristeza...
Fui sendo surpreendida pela
beleza da história. Fui sendo encantada com o
enredo do filme que acontece entrecortado entre as cenas do presente, passado e futuro, de
forma clara e revelando gradativamente a história.
O diretor rompeu a linearidade do tempo, creio que tal como acontece na realidade,
enquanto vivemos. Mas ele fez isso com a mão certa. Não é facil utilizar esse recurso. Outros diretores tentaram e não foram tão
felizes.
A atuação e a química entre os atores é incrível. Primorosos com sua naturalidade. Cenas da vida real.
E, apesar dos personagens não representarem a vida da maioria das
pessoas que conhecemos e convivemos no nosso incrível lugar comum, são cenas de
uma vida real, recheada de crises, de questionamentos e especialmente de
perdas. Sem maquiagens.
A trilha sonora tem como
base o estilo musical de Bill Monroe, que criou e deu nome ao bluegrass. Música
country de primeira, mesmo para quem não curte o estilo.
E, apesar do estilo de vida cowboy
e do gênero musical , o filme se passa na Bélgica.
Fiquei pensando se minha empatia
com a historia do filme seria pelo meu estado de espírito naquele dia. Mas li posteriormente
as críticas sobre o filme e, embora não haja unanimidade, ele está super
bem avaliado. E concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro.
De certa forma fiquei aliviada
por saber que minha emoção tinha seguidores. E minha admiração não era
solitária.
Deixo na minha conta a emoção que
me contaminou por alguns dias. E a choradeira no carro enquanto voltava pra
casa.
Literalmente, lavei a alma.
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
Queria saber...
...
Continuamos a assistir as soluções serem construídas sob os mesmos pilares,
pelo mesmo modelo mental, que não tem dado conta da complexidade do contexto
atual.
Desembarquei
em São Paulo
numa segunda feira, final de tarde, para ficar por uma semana em curso. Inadvertidamente
não consultei qualquer previsão metrológica para os próximos dias, que foi de
chuva intensa e queda de temperatura. As roupas na mala definitivamente não
combinavam. Com isso meus planos para o final do dia, passariam a ser percorrer
um ou vários shoppings da cidade para comprar um sapato fechado e uma blusa de
frio, básicos. O fato de estar sozinha e ficar trancada em uma sala de aula
puseram por terra o desejo de ir ao cinema ou teatro. O meu negócio era
andar... Espairecer. Era impossível caminhar pelas ruas por perto, por conta da
chuva, trânsito, manifestações bloqueando ruas, etc...
Considerando
o horário de verão e as dificuldades de locomoção pelas ruas, resolvi testar o
transporte público de São Paulo. Considero que andar pelas vias públicas e utilizar
os meios de transporte público sempre é uma boa escolha para travar contato com
a cultura e pessoas, em qualquer lugar do mundo, de forma barata e segura. Além
disso, a qualidade e diversidade dos meios de transporte público disponíveis em
uma sociedade evidenciam o nível de desenvolvimento e amadurecimento.
Todas
as vezes que estive em São
Paulo , todas elas a trabalho, o taxi sempre foi meu meio de
transporte comum, em função do tempo.
Bem,
não sei o que pensam e qual o nível de satisfação dos paulistanos com as linhas
de trem e metrô, mas fiquei impressionada com a rede de interligação entre eles
e entre os bairros. Voltei recentemente de férias na Europa e a verdade é que
não vi diferenças significativas na qualidade entre eles. Algumas questões são
iguais, mesmo os defeitos. Andei de uma ponta a outra da cidade com apenas um
bilhete, flutuando entre as linhas de metrô e ferrovia.
O
que impressiona e acho que faz a diferença é a quantidade de gente,
especialmente naquele horário de rush.
Bem, cá entre nós, foi loucura ter feito o “passeio” naquele horário. Fui
subindo e descendo, em algumas estações sendo conduzida por aquela multidão de
almas aflitas pra chegar ao seu destino. Parei finalmente em frente à entrada
de um vagão na estação Pinheiros, de frente para a Marginal, aguardando o trem
chegar e confesso que me assustei quando vi aquele mar de gente descendo em
grandes bicas pelas escadas rolantes para a plataforma do trem.
– Não vai dar, pensei, mas deu. As leis de
física precisam ser revistas porque acho que dois corpos podem ocupar o mesmo
espaço.
Fui
sendo gradativamente e “gentilmente” afastado da entrada do vagão, o que foi
ótimo porque quando o trem chegou a dança ali foi eletrizante. Eu perdi o
controle e me deixei levar e só sei que entrei no trem, em direção ao Morumbi.
A cada estação meu corpo era expulso pelos que queriam sair e depois retornava
pelos que queriam entrar no vagão.
Mas
lutei bravamente quando cheguei à minha estação e quis sair. Acho que a dor no
braço que sinto até hoje foi em função das braçadas que eu dei pra sair. E saí
já totalmente amassada e descabelada. O
espelho do banheiro do shopping Morumbi comprovou o meu estado. “A cara da riqueza” pensei, a me ver no
espelho...
Fiquei
pouco tempo no shopping, só mesmo pra descansar e tomar o caminho pra outra
estação e aguardar o movimento esfriar. Já estava escurecendo. Entrei novamente
e peguei de volta o trem para Vila Olímpia. Foi super tranqüilo, agradável e
cheguei ao bairro sob uma perspectiva que não tinha visto antes. A visão que eu tinha, ao chegar e sair de
taxi do shopping Vila Olímpia era completamente diferente, era uma visão pela
janela do carro.
Perguntei
como chegar ao shopping (estava a duas quadras) e ao parar no sinal comentei
com a menina ao meu lado:
–
Nossa, que movimento – falei. Nunca tinha visto tanta gente andando por aqui.
-
É todo dia assim, muita gente trabalha ou estuda aqui, nos escritórios e
shopping, respondeu a menina, de forma simpática.
Pensei
na rotina das pessoas, em
São Paulo e no Rio de Janeiro que enfrentam essa situação
todos os dias, sem opção de escolha. Se considerarmos a precariedade das linhas
de transporte do Rio de Janeiro, pude imaginar, com minha experiência, a
batalha diária. Nunca andei de trem no Rio, mas sei como chegam as pessoas que
desembarcam na Central pra pegar o metrô.
Uma
das coisas que não entendo é o motivo de não se fazer estações dos dois lados
de saída e entrada dos trens. É humanamente impossível controlar uma multidão
fazendo força em movimentos contrários.
Vi isso não só em SP e RJ, mas em outros países também. Talvez o que
diferencie é a quantidade de pessoas ou a educação, não sei. Mas a verdade que
ao planejar os engenheiros, arquitetos, urbanistas não deveriam contar com a educação
do povo, mas sim com as opções que o sistema pode oferecer para conforto. Será
que é economia de espaço, de dinheiro?
Na estação Pinheiros, por exemplo, como em quase todas, não é problema
de espaço para construir mais plataformas.
Será o custo? Que custo justifica essa situação? Logística? Qual
logística? Vontade de fazer bem feito? Será que não é falta de interesse pelo
bem público?Alguém sabe explicar porque se fazem estações de trem com apenas
uma entrada quando os vagões foram projetados para saídas de ambos os lados?
A
solução encontrada pelas autoridades têm sido colocar guardas nas estações que
tentam segurar a multidão, com cassetetes, empurrando as pessoas pra dentro dos
vagões ou fazendo o parto à fórceps,
de alguém que queira sair.
Outra
coisa que merece reflexão: porque ainda trabalhamos todos no mesmo horário e
nos mesmos lugares? Porque não vejo
qualquer movimento de empresas e poder público em estabelecer horários de
trabalho diferenciados, especialmente nas grandes cidades, de forma que o fluxo
de pessoas possa ser distribuído ao longo do dia? Mesmo sabendo das dificuldades e implicações
dessas mudanças, porque não ouço falar de movimentos efetivos nesse sentido?
Não
tenho a ilusão romântica e pretensiosa de que só eu pensei nisso. Todo mundo
deve se perguntar sobre isso e creio que pessoas estejam se debruçando sobre
isso. Mas porque não vemos nada acontecer de efetivo? Ao contrário, continuamos a assistir as
soluções serem construídas sob os mesmos pilares, pelo mesmo modelo mental que
não dá mais conta da complexidade do contexto.
E
o mundo não é mais o mesmo, a todo dia uma mudança significativa. Catástrofes
acontecem a todo o momento. O barulho e a desconfiança aumenta. O conforto perde
cada vez mais espaço. Já não adianta mais ter carrões porque o trânsito não
anda. Não adianta se fechar nos condomínios, a violência está dentro de casa. E
agora está batendo às portas, nas manifestações diárias.
À
noite, pra coroar as reflexões, vejo a notícia de que todo o lixo atômico produzido
no Japão, após o tsunami que passou por lá, está viajando pelo mar, como uma
grande ilha, em direção aos Estados Unidos e não se sabe exatamente o que fazer
com isso.
Tá pra lá da hora de pensar no bem comum em detrimento do que é particular. Afinal, não temos pra onde ir, moramos todos no mesmo planeta.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Em tempo de manifestações
Bem no início desses tempos de manifestações, saí correndo pela manhã para o trabalho e como a lei de Murphy quase sempre funciona, não encontrei um taxi àquela hora da manhã. Parei o primeiro que passava por ali e, comprovando a tal lei, naquele dia o trânsito estava especialmente ruim. Como é de praxe, pelo menos na cidade do Rio, a conversa entre passageiro e motorista acaba acontecendo e foi em função do trânsito caótico, balbuciando algumas revoltas corriqueiras, que conheci a história daquele homem.
“Que droga esse trânsito, essa cidade está um caos mesmo, quando não é uma coisa é outra.”
“É”, disse ele, “estamos vivendo tempos difíceis.”.
“E o pior que não temos pra onde fugir porque se não venho de taxi tenho que ir de metrô e aí é aquela loucura: calor, aperto. Até chego mais rápido, mas o preço é alto, então prefiro pagar táxi mesmo”.
“Pra mim também não compensa a corrida com este trânsito. Se continuar assim vou embora cedo pra casa hoje. Ainda mais que hoje tem manifestação no centro da cidade.”
“Olha, eu sou a favor dessas manifestações, acho que todo mundo deveria ir ver com os próprios olhos. Ontem mesmo eu fiz questão de ir ver a manifestação na Rio Branco. As pessoas criticam mas não vão lá ver com os próprios olhos e tirar suas próprias conclusões. Fica aí a imprensa manipulando os dados, dizendo que só tem arruaceiro e o que eu vi foram pessoas de bem, de todas as idades, vi uma manifestação pacífica. Muitas frases escritas nos cartazes tinham a ver com coisas que eu também discordo.”
“É dona, eu não sou contra, mas tenho muito medo. Eu aviso pro meu filho que se tiver movimento, confusão, não para em lugar nenhum, nem se for pra ficar olhando, vai embora correndo pra casa, porque é muito perigoso”.
Ainda sim, insisti mais um pouco. “Mas é importante se manifestar.”
E foi aí que percebi que, neste caso, a história seria diferente. “A senhora quer saber, eu tenho dores no corpo até hoje porque entrei de gaiato num momento como esse de manifestações em 1970. Fui todo quebrado, a minha arcada dentária, perdi todos os meus dentes e vivo a base de remédio porque até hoje meu corpo dói, apanhei muito”.
Naquele momento meu sensor disparou e eu comecei a prestar atenção naquele motorista de taxi, que falava sem olhar pra trás. Só conseguia ver o seu rosto pelo espelho interno. Seu nome não importa agora. Lembro apenas que era um homem claro, de cabeça branca, imagino que de uns 60 e poucos anos. Neste momento, me calei e incentivei que ele contasse com mais detalhes a sua história. Foi aí que percebi também que ele queria falar, que ele precisava falar.
“Eu era um garoto e meu pai, português, tinha um pequeno comércio, onde eu ajudava, além de estudar. Como sempre eu ia até o centro pra fazer pequenos trabalhos, ir ao Banco, contador, essas coisas. Meu pai me avisava que era pra ir num pé e voltar no outro. Naquele dia, eu saí do escritório do contador e vi uma confusão na rua. Acho que era um movimento estudantil. Na hora, fiquei curioso e dei uma paradinha ali. De repente uns policiais me pegaram e me rebocaram pra dentro de um camburão. Enquanto eu tentava dizer alguma coisa, eles me davam coronhadas. Quando acordei já estava preso, sem entender nada. Só lembro de apanhar muito. Eles quebraram meus dentes, meu maxilar e tive várias costelas quebradas”.
“O senhor sabia onde estava? Como conseguiu sair?”, perguntei curiosa.
“A minha sorte é que as pessoas ali em volta me conheciam porque eu ia todo mês e avisaram no escritório do meu pai. Eu fiquei no quartel da Tijuca, meu pai descobriu e conseguiu me tirar de lá porque, por sorte, ele tinha conhecimento com alguns militares, que eram seus fregueses. Só assim ele conseguiu chegar até um contato importante, do alto comando do exército. Mesmo assim, meu pai só conseguiu me tirar de lá depois de duas semanas”
“Nossa, que estória hein... O senhor é a primeira pessoa que conheço que viveu uma situação assim. A gente ouve falar, mas...”
“É , a gente acha que nunca vai acontecer com a gente. Quando meu pai foi me buscar eu estava quase morto, achei que ia morrer mesmo. Fui pro hospital e fiquei muito tempo até me recuperar pra ir pra casa e depois foram várias cirurgias, especialmente na boca porque eles trituraram meu maxilar. Não sei como não morri. Acho que é porque não tinha mesmo que morrer. Eu era um garoto bobo, não tinha a menor ideia daquilo tudo”.
“Mas e aí, como foi depois disso?”
“De vez em quando tenho pesadelos, mas o pior ainda é a dor. Nunca mais fui o mesmo. acabei não me formando. Mas eu não reclamo. Meu pai sofreu muito com isso também”, terminou, silencioso e pensativo.
Já estávamos chegando ao meu destino e eu, muda, refletia sobre aquele depoimento imprevisível numa manhã de segunda-feira. Permaneci com esta história de vida na cabeça e agora entendo que foi esse encontro, esse relato, que me motivou a voltar a escrever, falar sobre as pessoas, histórias e eventos que estão por aí. Momentos que esbarram com a gente e nos afetam de alguma forma.
É impossível sair imune de um encontro. Afetamos e somos afetados pelo outro o tempo todo.
No táxi, pago o valor da corrida, ele me entrega o troco, me agradece e diz:
“Desculpe aí qualquer coisa”.
Sorrimos.
Assinar:
Postagens (Atom)