quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Calor do Saara

Os dias cada vez mais quentes, de um calor escaldante. Não me lembro de ter visto isso antes. Tá certo que não morava na cidade maravilhosa. Andava protegida na serra.


As roupas estendidas ainda ensopadas no varal, se submetidas ao sol direto, em pouco tempo são recolhidas ressequidas, sem resquícios de umidade no tecido. Nem mesmo o amaciante dá conta de manter a maciez do fio. Imagine nossa pele.


E aí, sair na rua nos horários de pico do sol é decretar mal estar súbito.


Desci a rua em direção ao compromisso de sábado. Conforme fui descendo, minha respiração foi ficando mais intensa, o peito pesado e o corpo cada vez mais lento. Atravessar a Praça Saenz Pena às três horas da tarde me pareceu atravessar o deserto. Do Saara. Cheguei ao meu destino sentindo algo que nem sei explicar. Estou preparada fisicamente para caminhar longas distâncias, mas definitivamente não em condições inóspitas.


Enquanto atravessava a praça não pude deixar de lembrar-me de algumas passagens do livro de Ryszard Kapuscinski – O Ébano. O jornalista polonês percorreu o continente africano como correspondente da agência de notícias polonesa PAP. Sua primeira incursão pela África aconteceu em 1957. Ele se refere ao calor da África em diversas passagens, profundamente impressionado com a forma que os africanos encontraram para conviver com isso, de forma intuitiva ou por um conhecimento passado por gerações. 


Ele conta que passava e se surpreendia com as pessoas paradas, numa mesma posição durante horas, sem qualquer expressão no olhar, apenas paradas.


E pensei que poderíamos aprender essa técnica, nesses novos tempos de calor, tão semelhantes. Afinal ele se referia a 50 graus.  Já deixamos de ser Rio 40 grau.  Tais como os africanos, diante desse calor, aprenderíamos a ficar parados, sem movimento, em estado de semicoma, quase vegetativo.  


Uma boa opção. Teoricamente abandonaríamos o corpo físico e o deixaríamos ligado à mente somente por um fio invisível. Deixaríamos o estado de vigília, portanto. A teoria é que nesse estado, o corpo se desliga temporariamente das sensações físicas tais como calor, frio, fome, etc.


Teríamos que adaptar essa técnica para o dia a dia no Rio de Janeiro.  De alguma forma, creio que o carioca já exerça essa capacidade de desligamento, a contar pelas inúmeras e intermináveis filas de ônibus, trens, bancos, repartições públicas. Talvez já exista alguém vegetando nessas filas.


Bem, pela manhã tudo bem. Apesar do calor já beirar os 36 graus, é mole pra gente. Um banho frio de manhã, uma roupa fresca, comidas leves.  Terei que adaptar o meu café da manhã para uma versão gelada, já que tenho crise de abstinência sem ele e tá ficando difícil a versão tradicional, quentinho.



Complica mesmo na hora do almoço. A partir de 11 horas (10 horas na verdade) o sol de meio dia já chegou apressado.  Às 12 horas, ele “tá que tá”.  Somando ao calor, ruas lotadas de pessoas transitando em busca de um lugar para comer, mas antes de qualquer coisa um refúgio. E aí junto com as pessoas, o vozerio, os restaurantes lotados e o tão sonhado ar condicionado não dá conta de refrescar tantos corpos quentes e suados... Uma catástrofe.


Saí, dia desses, sozinha para almoçar porque pretendia passar pelo Banco. Fui um pouquinho mais longe que o de costume. Mas o local é conhecido como Saara. Dá pra ter uma ideia que o nome não é à toa.  Até chegar ao restaurante passei por diversos obstáculos: muita gente transitando, falando. Ou melhor, gritando. Em volta, sujeira, poeira, cheiros variados e desagradáveis. E o sol lá em cima, impiedoso. 


O restaurante que a princípio parecia um oásis, logo se transformou numa fornalha. As garçonetes agitadas, derrubando tudo, filas imensas. Saí de lá irritada e com dor de cabeça. Cheguei a achar lá fora melhor. E não pude deixar de lembrar o livro.


Lembrei-me também que, de alguma forma, eu já utilizava uma técnica de semi- presença e precisava resgatar. Uma versão carioca.


A versão é simplesmente ignorar. É preciso ignorar o calor. Essa é a minha teoria. 


Ao atravessar qualquer porta que o separa do ar condicionado com o mundo lá fora, você deve respirar fundo e depois compassadamente. Agarre sua bolsa ou carteira (não dá pra vegetar nesse sentido no Rio) e sair em passos cadenciados e fazer de conta que está em algum outro lugar (escolha o seu). O calor vai chegar de qualquer jeito e te dominar por completo, mas, finja que não tá nem aí.  Pra mim funciona se eu estiver andando, em movimento o tempo todo. Se parar... O calor concentra e aí saio em pouco tempo do estado meditativo para o desespero.


Bem, afinal acho que não sou tão boa nessa técnica assim.


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